Nota

Album amicorum nº25

por CECLI

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A Aline Rochedo, doctoranda en Antropología Social de la Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e investigadora del grupo Historia da Arte e Cultura de Moda, la conocimos en las Terceras Jornadas sobre Objetos y Cultura Material “Objetos y emociones”. Participó desde Brasil por videoconferencia e inmediatamente quedamos maravillados y maravilladas con su investigación enfocada en la circulación y transmisión de las joyas familiares. Le pedimos que llenara la página número 25 de nuestro álbum de amigos y amigas para conocer sus propias adquisiones, herencias y obsequios favoritos. Este no solo es nuestro primer álbum en portugués, sino también un cofre del tesoro de objetos cotidianos cuyo valor no se transa en el mercado sino en el corazón.

1. O Macaco

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Foi numa viagem a trabalho a Nova York, em novembro de 2000, que eu comprei o Macaco. Entre um e outro compromisso, fui à loja de brinquedos FAO Schwarz por curiosidade e para me abrigar do frio. Avistei esse bicho de pelúcia já da porta, na entrada. Na verdade, havia uma centena de exemplares, todos pendurados. Meus olhos, no entanto, fixaram-se neste da foto, e decidi levá-lo para a casa. A partir de então, meu marido e eu passamos a carregar o Macaco em nossas viagens mundo afora e a fotografá-lo em cenários clássicos – e começamos a fazer isso antes da estreia do filme de Amélie, de 2001, que tem o anão de jardim viajante.

2. Os patins

Patins

Patinação artística foi o esporte que pratiquei por mais tempo. Aos oito anos, ganhei um modelo com botas pretas e rodas alaranjadas que vendi a uma amiga quando meus pés cresceram. Com 12 anos, passei a fazer aulas e ganhei um novo par, desta vez, branco. Foram anos de dedicação intensa. Em meados dos anos 1990, porém, comecei a trabalhar, e os patins foram guardados. Em 2007, retomei as aulas e comprei um par novo, esse da foto. Interrompi os treinos em 2009, após uma queda com os patins, acidente do qual saí um pouco machucada. Então parei e não voltei mais. Assim como me falta coragem para retomar a patinação, falta-me coragem para passar os patins adiante. Gosto de tê-los perto de mim.

3. A cadeira

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Minha mãe estava grávida de mim quando ganhou da vó Nina essa cadeira de balanço, na década de 1970. Na versão original, assento e encosto eram de palha, mas meus irmãos e eu os destruímos brincando. Lembro-me de montar casas de bonecas embaixo dela e de passar algum tempo observando o mecanismo que garante seu balanço. Minha mãe sempre pedia para termos cuidado com os dedos nas molas. Há uns três ou quatro anos, já restaurado, esse móvel foi trazido para meu apartamento, doado por minha mãe. Esteve na sala, agora fica no escritório, próximo à estante de livros. Nele embalo algumas leituras.

4. O anel

Anel

Em junho de 2011, de férias em Paris, vi este anel na vitrine da Miss Bibi, loja instalada no Palais Royal. Era o último dia da viagem, e eu não queria gastar dinheiro com compras. De volta a São Paulo, onde morava naquela época, eu pensava com frequência no anel do sapatinho preto e prometi a mim que, quando voltasse a Paris, compraria o objeto. Por sorte, naquele mesmo ano, regressei à capital francesa a trabalho e decidi me dar o anel de presente de aniversário. Havia sapatinhos de diferentes cores, mas eu queria o preto, o scarpin básico. A vendedora trouxe o único exemplar disponível e ficamos torcendo para que coubesse no meu dedo. O sapatinho serviu, e espero que sejamos felizes para sempre.

5. O Vestido

Vestido

Este vestido é o protagonista da minha dissertação de mestrado em Antropologia Social. Na pesquisa, explorei a biografia cultural desse traje assinado pelo estilista Rui Spohr, de Porto Alegre (Brasil), e comprado por Heloisa Brenner, senhora da alta-sociedade do Rio Grande do Sul. Em suma, o vestido foi apresentado durante um desfile de moda em 1971 e acompanhou a proprietária durante 40 anos, sendo escolhido por Heloisa como a roupa para celebrar seus 80 anos, em 2011. Em 2012, a roupa foi exposta no Museu de Arte Brasileira, em São Paulo, como síntese da carreira de Rui. A dissertação trata das muitas instâncias de consagração na vida do vestido e as cruza com as transformações nas trajetórias do estilista e da senhora Heloisa. Devo a esse objeto e às pessoas ligadas a ele minhas conquistas e alegrias acadêmicas.

6. O broche

Broche

No livro Um Sopro de Vida, a escritora Clarice Lispector compara um broche a um argumento: “Lança-se no ar como uma mulher-gazela. Ele prende, ele pesa, ele espera. E quando é desfechado – tudo fica nu, caem os panos e os seios brancos parecem róseos. O broche é um ponto final”. Ganhei essa delicada peça da minha mãe quando passei na seleção do doutorado, em 2015. Como pesquiso a transmissão de joias de família e seus eventuais desvios, às vezes divago sobre o possível percurso desse objeto arrematado em um antiquário. A quem terá pertencido? Quem o fabricou? De onde veio? Por onde andou?

7. A bolsa

Bolsa

Essa bolsa artesanal guatemalteca é um dos acessórios mais vibrantes que tenho. Eu a comprei em Córdoba, na Argentina, em 2013, pois me encantei com o colorido da tela que segue a mesma técnica de tecer das túnicas huipiles, vestes tradicionais e cerimoniais da cultura maia. O acabamento é rústico e aparentemente frágil. Nos primeiros anos, aliás, evitei usá-la com frequência, temendo que se desmanchasse. Feita a partir da força indígena, porém, a bolsa vem me desafiando e resistindo.

8. Livro de cabeceira

Livro

O Espírito das Roupas: A Moda no Século Dezenove, de Gilda de Mello e Souza, é reconhecida como obra clássica da sociologia brasileira, embora nem sempre tenha sido tão celebrada. No local e na época em que foi apresentada pela primeira vez, na Universidade de São Paulo (USP) dos anos 1950, a tese de doutoramento recebeu críticas pelas temáticas moda e sociabilidade burguesa e pela narrativa ensaística e literária. Apenas em 1987, foi publicada em livro. Li a obra de Mello e Souza em 2013, durante a produção de minha dissertação de mestrado, e nela encontrei coragem para me arriscar na escrita. Entretanto, há outra força que me conecta ao exemplar d’O Espírito das Roupas que tenho em minha estante: foi presente da Patrícia Negrão, uma amiga. Eu o guardo ainda com mais carinho porque integrava a biblioteca dos pais de Patrícia, e ela confiou o objeto a mim após o falecimento deles.

9. A câmera

Câmera

Minha mãe comprou esta máquina fotográfica em 1964, em Nova York, quando ainda era estudante universitária. Até o início dos anos 1980, foi com este equipamento que ela registrou encontros familiares, férias e o cotidiano da nossa família. Um dia, a máquina caiu no chão, algo nela se quebrou e nunca mais funcionou – seu conserto era tão caro que não valia a pena naquela época. Em função da memória afetiva, ela decidiu guardar a câmera, mesmo estragada. Minha mãe acabou me repassando esse objeto (na verdade, eu pedi para guardá-lo) que, hoje, linda e inútil, decora a estante.

10. Cadernetas e blocos

Blocos

Tenho dificuldade (ou resistência?) a alguns recursos digitais, como agendas eletrônicas e blocos de nota no computador. Minha mão gosta de escrever em movimentos circulares e do contato com o papel. Por isso, sempre tenho bloquinhos e cadernetas, e adoro ganhá-los de presente. Tenho vários sobre a mesa, dentro das bolsas, nas gavetas, e é com eles e neles que organizo ideias e meus dias.